Opinião

O amor em tom caramelo!

Publicado em

Opinião

Por Soraya Medeiros

Há encontros que a vida marca com letras miúdas, quase invisíveis, e a gente só entende depois. No meu caso, veio de quatro patas, pelo queimado de sol e olhos âmbar que pareciam guardar segredos antigos. Um cachorro caramelo. Aquele tom entre terra molhada e café com leite, como se tivesse absorvido todas as tardes quentes do mundo.

Existem muitos iguais a ele por aí, espalhados pelas ruas e pelos quintais alheios. Mas o meu não é só um caramelo. É o Bob.

Bob tem uma coisa rara: acredita, com toda a convicção canina, que é um pitbull. Medo? Ele desconhece. Entra em qualquer confusão de peito aberto; late para o vento, para o carteiro, para o mundo inteiro, se for preciso. É valente no jeito de puxar a coleira, no olhar atento, no rabo que abana até quando o dia está nublado. Ele enfrenta o que for — menos o meu silêncio. Porque a verdadeira coragem dele é outra. É feita de afeto. De presença. De alma.

Foi numa daquelas fases em que a gente desce tanto dentro de si que o fundo parece não ter fim. Tudo desabava, e eu já nem lembrava como era respirar sem esforço. O silêncio da casa era pesado, úmido, sufocante. Me encolhi no que pude, me escondi até de mim.

Até que ele chegou. Ou melhor: até que eu permiti que ele me encontrasse ali. Bob não pediu licença. Ele nunca pede. Apenas se aproximou e fez o que sabe fazer melhor do que qualquer ser humano que já conheci: latiu para o meu silêncio.

Não era um alarde. Era um chamado. “Eu estou aqui”, dizia aquele latido rouco. “Eu te vejo”.

Bob me tirou do fundo do poço. Não com palavras — que muitas vezes só machucam quando a gente está quebrado. Ele me levantou com o calor do corpo, com o peso da cabeça encostada no meu peito, com o rabo que batia no chão como quem tenta acordar uma alma adormecida. Ele me resgatou com vida. Com insistência. Com amor.

Aprendi com ele algo que ninguém havia me contado: ser forte não é não sentir dor. É caminhar com ela. É aprender a respirar mesmo quando o peito pesa. É abaixar para afagar um pelo quente enquanto tudo dentro de você tenta desabar. O amor dele é assim: não apaga a tristeza, mas ilumina o caminho por onde ela passa.

Bob me salva todos os dias — e às vezes, sem perceber, me salva de mim mesma. No toque da cabeça pedindo carinho, na bolinha que ele insiste em trazer nos momentos mais improváveis, como quem diz: “Vem. A vida está te chamando de novo”.

Quando achei que a história estava completa, o universo, sempre generoso em seus mistérios, trouxe a Kakau. Ela é uma dama: calma, doce, amável. Tem passos leves e alma macia. Uma princesa que cuida com o olhar, que acalma só de existir. Ela espalhou ternura onde antes havia cansaço acumulado.

E depois veio a Luna. Ela não chega — ela explode. É um furacão em forma de cachorra, uma tempestade cheia de alegria e luz. Bagunça a rotina, vira tapetes, abre espaço onde não tem. Luna é energia pura, um lembrete constante de que viver também é saltar, correr, se jogar sem medo.

Hoje, olho para os três: Bob, deitado com a dignidade de um leão sábio. Kakau, serena como uma manhã de sol manso. E a Luna, correndo atrás da própria felicidade em círculos pela sala.

Vejo, neles, um mapa da minha própria alma. Bob me resgata, Kakau me suaviza e a Luna me desperta. Juntos, eles me ensinam — todos os dias — que o amor verdadeiro é simples, profundo e silencioso. Não exige. Não pesa. Não cobra. Apenas acontece. Invade. Cura.

E talvez essa seja a mensagem, escrita em tom caramelo, em latidos, em patinhas que passeiam pela casa: o amor tem muitas formas de chegar. Alguns vêm devagar. Outros arrombam a porta. Todos transformam.

No meu caso, ele veio correndo, com o rabo abanando e olhos que insistem: “Fica. Ainda vale a pena”. E desde então, a vida me salva em tom caramelo. E eu carrego essa cor dentro de mim!

*Soraya Medeiros é jornalista.

COMENTE ABAIXO:
Propaganda

Opinião

O Silêncio que Ensina: Um Tributo a Dona Maria Benedita

Publicados

em

Por André Barcelos

Hoje, o tempo, em sua marcha inexorável, levou Dona Maria Benedita Martins de Oliveira. Para muitos, o nome pode soar familiar pela associação imediata ao seu filhomais conhecido, o saudoso Dante de Oliveira, o homem que ousou sonhar com um Brasil mais justo e democrático ao propor as Diretas Já. Contudo, reduzir a existência de Dona Maria à de “mãe de Dante” seria uma injustiça, uma miopia que a efemeridade do presente não pode nos impor. A partida de uma matriarca como ela não é apenas o fim de uma vida, mas o fechamento de um ciclo, o silenciar de uma fonte de sabedoria que nutriu não apenas uma família, mas, de forma silenciosa e constante, os valores que sustentam – ou deveriam sustentar – uma sociedade.

Dona Maria era uma reserva moral. Em um mundo cada vez mais ruidoso e efêmero, ela representava a solidez da retidão, da serenidade e da resiliência. Professora por vocação, sua pedagogia não se limitava às salas de aula. Ela educava pelo exemplo, pela postura tranquila e pela sabedoria que, como bem observado por quem teve o privilégio de sua companhia, não se explica apenas pela longevidade. Havia nela uma profundidade que transcendia o tempo, uma força que se manifestava não em grandes discursos, mas no gesto contido, no olhar sereno e na palavra certa, dita no momento exato.

É impossível dissociar a trajetória de Dante de Oliveira da influência de sua mãe. Em um lar onde o pai, Sebastião de Oliveira, era uma figura pública de posições políticas firmes, foi no colo de Dona Maria que, certamente, os ideais de justiça e honestidade foram forjados. Se o pai lhe servia de “bússola” em termos de seriedade, como o próprio Dante afirmava, a mãe era o porto seguro, a guardiã dos valores inegociáveis. As grandes decisões políticas, os embates no Congresso, a coragem de enfrentar um regime autoritário, tudo isso encontra raízes na formação moral que ela, como matriarca, soube cultivar. Ela era o centro silencioso, a força invisível que o impulsionava, a certeza de que, independentemente das tempestades políticas, havia um lar e um código de honra a zelar.

Em um momento sombrio da nossa sociedade, em que a violência contra a mulher atinge patamares alarmantes, a vida de Dona Maria Benedita surge como um contraponto necessário e urgente. Ela personifica a força feminina que constrói, que educa, que sustenta. Uma força que não se impõe pela violência, mas pela autoridade moral, pela sabedoria e pelo amor. A sua existência nos lembra que a verdadeira força de uma sociedade reside no respeito e na valorização de suas mulheres, de suas mães, de suas educadoras. O legado de Dona Maria é um farol que nos guia em meio à escuridão, um lembrete do poder transformador da figura materna.

A família, para Dona Maria, era o alicerce de tudo. Em um clã de sete filhos, cada um com sua trajetória e personalidade, ela era o elo, o ponto de convergência. A sua casa era mais do que uma estrutura de tijolos; era um santuário de valores, um espaço onde a ética e o respeito eram a base de todas as relações. O seu legado não está em monumentos ou discursos, mas na integridade de sua família e nos valores que, como sementes, ela plantou em todos que a cercavam.

Quem teve a oportunidade de trocar “dois dedos de prosa” com Dona Maria sabe que sua sabedoria era um presente. Ela nos deixa um legado silencioso, mas perene. Um legado que nos ensina que as maiores transformações começam no seio da família, que a verdadeira força reside na serenidade e que a retidão é o único caminho possível. A efemeridade do tempo não apagará a sua luz. Pelo contrário, a sua partida nos convida a refletir sobre o que realmente importa, sobre os valores que nos definem como indivíduos e como sociedade. Que o seu exemplo continue a nos inspirar a construir um mundo mais justo, mais digno e mais humano. Um mundo onde os ensinamentos de Dona Maria Benedita continuem a ecoar por gerações.

 

 

 

COMENTE ABAIXO:
Continue lendo

POLÍTICA

POLÍCIA

ESPORTES

ENTRETENIMENTO

MAIS LIDAS DA SEMANA